terça-feira, 25 de maio de 2010

Franguinho da Vovó

Minha avó está viva em meus pensamentos agora que estou adulta indo para a idade madura com muito mais cores e cheiros do que quando eu era jovem.

Lembro-me dela com seu vestido claro e sempre limpo, mas que para mim na euforia da infância parecia sempre o mesmo e do seu avental que eu nunca a vi tirar. Talvez porque ela acordasse com as galinhas e dormisse somente depois que todos já haviam se deitado.

Gostava de cozinhar no seu fogão á lenha, pois achava o á gás muito moderno e não se adaptava.

Oh! Comida boa a da minha avó, ela fazia o trivial, aquilo que era para ser uma comida do dia a dia se transformar em um banquete de tão bom, e olha que o meu paladar de criança foi sempre exigente.

Ela me perguntava: O que você quer comer hoje Aninha?

E eu respondia: Um franguinho vó!

- Então você mesma vai escolher!

E ambas íamos para o quintal do sítio escolher o tal frango. Todas as aves estavam no terreiro soltas e ela as chamava, tirando do bolso de seu avental grãos de milho que jogava chamando:

- Ti, ti, ti, ti, ti, ti, ti.....

Eu olhava para as pobres aves afoitas em comer os grãos de milho, correndo todos em barulhento alvoroço e dizia: - Aquele vó das coxas grossas!

Então minha querida avó pegava um grande balaio e numa pontaria certeira prendia o pobre frango.

Aquele seria o nosso jantar, e eu a ajudava a depenar a ave e a via preparar um franguinho caipira como ela mesma dizia. Ficava encantada com todo aquele aparato, achava aquilo tudo muito diferente.

O meu encantamento com certeza vinha da minha vida urbana onde o alimento já vinha pronto do mercado e eu nunca tive que “caçar” o que iria comer.

Minha avó também fazia sabão, doce de leite, tirava leite da vaca, lavava suas roupas no ribeirão, fazia pamonha. O dia de fazer pamonha era uma festa para mim e meus irmãos, pois primeiro íamos ao milharal catar os melhores milhos que trazíamos em cestos. Depois tirávamos as palhas e os cabelos para então minha avó e minhas tias ralarem os milhos em grandes raladores e continuarem o preparo das pamonhas. Elas eram cozidas em um grande taxo em cima de um fogão improvisado no terreiro.

Na hora em que ficavam prontas e todos comíamos juntos era muito bom. Ríamos, conversávamos e minha avó contava seus “causos” que eu gostava muito de ouvir.

E cada coisa que ela fazia daria uma história pitoresca, pois tudo era poético e eu via tudo aquilo com os olhos infantis de admiração e amor por aquela mulher pequena e forte.

Isto ficou para sempre preso em minhas memórias da infância e ajudou a formar a minha personalidade.

Convivi com a minha avó pouco, em algumas férias escolares quando meus pais podiam me levar para o sítio de meu avô, mas a qualidade destes dias foram marcantes e importantes para mim.

Ao me despedir de minha avó Maria, este era o nome dela, simples e bonito como ela, eu sempre chorava. Chorava porque ficava dividida. Queria ir com meus pais, mas também queria viver aquela vida maravilhosa de natureza, de cheiro de flores, maracujá catado no pé, amendoim tirado da terra, manga chupada embaixo das mangueiras e a presença de minha avó que eu sempre seguia nos seus afazeres do dia a dia com muita admiração e interesse.

Chorava e sentia meu peito apertado, mas acabava tendo que ir embora com meus pais.

Na charrete que balançava ficava olhando para trás e via minha avó com seu vestido claro e seu avental de bolsos grandes e os olhos marejados de lágrimas como os meus.